O uso da profilaxia pré-exposição (PrEP) na versão injetável garantiu proteção em 90,8% dos dias de acompanhamento entre os participantes avaliados, taxa quase três vezes superior à registrada por usuários do comprimido oral diário no SUS (35,5%). Os dados constam no estudo ImPrEP CAB Brasil, coordenado pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) e publicado na revista científica The Lancet HIV.
O levantamento avaliou a aplicação do antirretroviral cabotegravir de ação prolongada (CAB-LA), administrado por injeção intramuscular a cada dois meses após a aplicação de duas doses iniciais. A análise incluiu 3.096 participantes acompanhados em serviços públicos de saúde em seis capitais e cidades polo: Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Florianópolis, Salvador e Manaus.
Taxa de infecção e adesão
Durante o monitoramento, os pesquisadores constataram uma taxa de novas infecções por HIV expressivamente menor entre as pessoas que optaram pelo medicamento injetável:
- PrEP injetável (CAB-LA): 3 novos casos de HIV entre 1.201 usuários, com taxa de incidência de 0,20 a cada 100 pessoas ao ano.
- PrEP oral no SUS: 18 infecções registradas no grupo de comparação de 1.649 pessoas que iniciaram o tratamento em comprimidos diários (taxa de 1,47 por 100 pessoas ao ano).
- Pontualidade: 92% das injeções foram aplicadas dentro do prazo clínico recomendado de retorno.
O perfil da pesquisa concentrou voluntários de 18 a 30 anos que nunca haviam tomado a medicação, prioritariamente homens cisgênero gays e bissexuais, travestis, mulheres e homens trans e pessoas não binárias. Do total de participantes, 53,7% se autodeclararam pretos ou pardos.
Efeitos colaterais e barreiras de acesso
O principal efeito adverso registrado com o uso do cabotegravir foi dor leve ou moderada no local da injeção, relatada por 87,5% dos participantes, com redução progressiva ao longo das aplicações subsequentes. Apenas 2,5% do grupo abandonou o uso por causa do incômodo no local da aplicação.
O abandono total do tratamento injetável foi de 8,8% (107 pessoas), ocorrendo com mais frequência entre indivíduos pretos e pardos, pessoas com menor escolaridade ou com relatos de sintomas moderados a severos de depressão. Segundo os autores da pesquisa, os números indicam que a incorporação de novas tecnologias exige também ações complementares de apoio psicossocial e enfrentamento a desigualdades sociais para manter a população jovem vinculada aos serviços de saúde.
O estudo foi financiado pela Unitaid, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde, com fornecimento de medicamentos pela farmacêutica ViiV Healthcare. O Ministério da Saúde avalia a incorporação definitiva do cabotegravir injetável ao SUS por meio da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), enquanto a versão em comprimidos diários segue disponível gratuitamente na rede pública.






